Margarida Balseiro Lopes

“Catedral Verde e Sussurrante”

Catedral verde e sussurrante, aonde

A luz se ameiga e se esconde

E aonde, ecoando a cantar,

Se alonga e se prolonga a longa voz do mar

 

Ilhas de Bruma/Afonso Lopes Vieira

 

                        Ilhas de Bruma/Afonso Lopes Vieira

Nascida na Marinha Grande, na orla do Pinhal de Leiria e a poucos quilómetros de São Pedro de Moel, foi de muito pequena que me habituei a frequentar, admirar e respeitar estas duas encantadoras realidades – o Pinhal de Leiria e a praia de São Pedro de Moel. Realidades que se completam, como tão bem as soube cantar o poeta Afonso Lopes Vieira, que aqui passou muitos anos da sua vida, entrecortados por presenças na casa de família, nas Cortes, em Leiria.

E foi num gesto de grande altruísmo que o poeta legou a sua “casa-nau” à Câmara Municipal da Marinha Grande, para que aí “fosse instalada uma Colónia Balnear infantil, para os filhos dos operários vidreiros, bombeiros e trabalhadores das Matas Nacionais”.

Anos mais tarde, no primeiro andar do edifício seria instalada a Casa-Museu, que preserva a memória do poeta e na qual jovens estudantes que a isso se candidatassem podiam ocupar os tempos de férias acompanhando os visitantes. Na solarenga varanda, com uma vista deslumbrante para o mar, estavam sempre em destaque as palavras do poeta que me marcaram: “Penso às vezes como depois de eu morto certos objetos do meu uso hão de chorar por mim. Essas saudades deles comovem-me de modo que sinto até já saudades minhas...” Também por lá passei com 16 anos, fazendo as visitas guiadas, numa experiência de gratificante crescimento que prolonguei, mais tarde, também em trabalho de férias, num dos cafés mais icónicos desta estância turística, o Bambi.

São Pedro de Moel e a Mata de Leiria fizeram, pois, parte da minha infância e mesmo da minha adolescência, sendo certo que continuam a ser locais de encanto que ainda hoje não dispenso. Desses tempos ficaram as brincadeiras no fino areal da praia, as barrocas em que chapinhávamos entre marés, os passeios por entre as rochas até ao farol centenário do Penedo da Saudade, os mexilhões que íamos apanhando pelo caminho, as poças de água em que nos íamos banhando, as correrias com os pais, com amizades de infância e que perduram. E quando o cansaço chegava lá estava a sombra retemperadora do toldo ou do chapéu-de-sol, o vendedor de bolachas e gelados percorrendo todo o areal, as bolas-de-berlim da Rosa dos Bolos, a bebida refrescante no Topis, o almoço na Concha ou no Melo, recordações que se perderam no tempo, nalguns casos definitivamente. Quem tem recordações desses tempos não pode deixar de sentir nostalgia (e também tristeza) por ver tão transformadas realidades que fizeram parte da infância não apenas dos marinhenses, mas de muitos outros portugueses e estrangeiros que veraneavam em São Pedro de Moel.

O mesmo sentimento de perda tem quem cresceu entre os pinheiros da “catedral verde e sussurrante” que o poeta tão bem soube cantar. Cresci na orla do Pinhal de Leiria, no seio de família que aí viveu e trabalhou durante anos, lanchei nas mesas da Ponte Nova, do Canto do Ribeiro, do Tremelgo, do Samouco, da Água Formosa, das Tercenas, realidades que o fogo de outubro de 2017 fez desaparecer por muitas décadas, ficando agora apenas o que guardámos na memória. E foi pela família que fui “conhecendo” outras realidades da Mata – os bairros dos assalariados e dos guardas florestais de Pedreanes onde o meu pai viveu até aos 17 anos, o regulamento dos horários de entrada e saída do pinhal, as casas da guarda (florestal), o transporte de madeira para os fornos de vidro da Marinha Grande, os carros de bois articulados, o comboio de lata!

Diz-se que perder as memórias de infância é como perder a própria identidade, desconhecer-se quem se é. Acredito que isso seja verdade, pois voltar aos meus tempos de infância é um exercício que não dispenso. Afinal, é na raiz que a árvore consolida o crescimento.


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