Uma das definições de tolerância é a qualidade de aceitar opiniões opostas às suas. A intolerância será, então, o oposto disso.

Aceitar aquilo que não se quer, ou ouvir com paciência opiniões diferentes das suas, são consideradas habitualmente virtudes necessárias para a convivência numa sociedade democrática. Mas são mais do que isso, são condições necessárias para viver em sociedade.

A intolerância radica no conceito da superioridade, e é habitualmente embrulhada em argumentos de ordem moral. Os intolerantes consideram-se superiores por serem portadores ou fomentadores do Bem. A falácia dos intolerantes é a de eles não tolerarem o Mal que são os outros.

A colonização e o colonialismo, com as suas componentes clássicas de “civilizacionar “ e cristianizar , são exemplos clássicos da intolerância. Os colonizadores não toleravam as ideias dos outros, nem os comportamentos dos outros, nem a cor da pele dos outros, a tal ponto não os toleravam que nem os consideravam seus semelhantes, seres humanos. Os colonialistas — que são uma espécie distinta dos colonizadores — entendiam os habitantes das colónias como um produto a ser explorado como qualquer outra, uma matéria-prima. Nada mais. Por isso os colonialistas belgas cortavam os braços aos negros do Congo que não produziam o que fora determinado, por isso os colonialistas da Diamang, em Angola, substituíam anualmente os “contratados” que sofriam acidentes com as vagonetas do cascalho por outros arrebanhados pelos agentes das administrações coloniais.Intolerancia02

A intolerância religiosa é outra das manifestações mais sangrentas da intolerância, e também das mais estúpidas e contraditórias. No limite da irracionalidade, a intolerância religiosa assenta no facto de o portador da verdade, o guerreiro do Deus verdadeiro, não tolera que o “outro”, o herege, o infiel, o pagão tenha um Deus que para ele é tão verdadeiro quanto o do missionário cristão, do imã muçulmano, mais, que não queira ir para o seu paraíso, por isso o decapita, o tortura, o escraviza.

A intolerância dita política é uma variante da intolerância religiosa em que a promessa do paraíso na vida eterna é substituída por um paraíso terreno. A intolerância política é uma proposta radical de corte no contrato social, nas regras que permitem que nos oiçamos e convivamos.

Somos confrontados diariamente com repetições da frase do padre católico francês Jean Meslier (1664–1729) retirada de um “testamento” aos seus paroquianos e a toda humanidade, a denunciar a falsidade de todas as divindades e de todas as religiões do mundo: “O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”, encontrada no livro Extrait des sentiments, editado por Voltaire, a quem muitas vezes a frase é atribuída.

Quando se lê, a propósito da Festa do Avante, “estou de acordo com a entrada dos 100 mil, mas não que os deixem sair”, estamos, embora numa escala mais ligeira, no mesmo mundo de intolerância dos falangistas que desencadearam a guerra civil espanhola de “rojos ni amnistia ni perdon, al paredon”. E a frase sobre a Festa do Avante pode originar outra de quem estiver de acordo em deixar ir 100 mil peregrinos católicos a Fátima, mas não a que os deixem sair. Ou, se estivéssemos na Índia, a desejar a morte por afogamento aos milhões de hindus que vão tomar um banho ritual ao rio Ganges. E por aí adiante (já agora é falsa a afirmação atribuída a Otelo Saraiva de Carvalho sobre meter os fascistas no Campo Pequeno — ele não a proferiu) até chegarmos ao mundo inabitável descrito na famosa carta que o Cacique de Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou em 1855 ao presidente dos Estados Unidos, Francis Pierce, depois de o governo americano haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Diz, em resumo, que quando a última árvore tiver sido derrubada, o último rio tiver secado, o último peixe tiver sido pescado então os brancos veriam a inutilidade do dinheiro. Já esteve mais longe esse resultado da intolerância.

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A intolerância, isto é a recusa à convivência com os outros (o que implica com a cultura e os valores dos outros) e com a natureza, conduz ao mundo inabitável. O resultado da intolerância é este mundo que está a ser promovido quando abdicamos da nossa racionalidade e aceitamos como normal colaborar no suicídio coletivo a que nos conduzem loucos e criminosos como Trump, Bolsonaro, e outros sicários menores que promovem a intolerância como um Bem e uma marca identitária.

Quanto a marcas identitárias de intolerância, as mais conhecidas são as dos ferros incandescentes que os donos colocavam nos escravos. Há quem, entre nós, continue a defender essas marcas. E há quem se entenda civilizado e admita essa intolerância civilizacional que propõe os seres humanos distinguidos pelo ferro do proprietário, o ser da raça superior.

A introdução do voto como elemento legitimador do poder, que ocorreu com as revoluções liberais na Europa no século dezanove, constituiu um ganho civilizacional inegável, mas não colocou o poder nas mãos do povo. A intenção não era essa, mas sim alterar os grupos detentores do poder. O voto seria como foi e é o sistema de controlo desse novo poder. Um sistema virtuoso, diga-se, se comparado com o poder senhorial de casta, do Antigo Regime, mas devidamente armadilhado para não ameaçar os seus criadores e usufrutuários.

A sociedade liberal era e é um mercado e o voto passou a ser uma mercadoria. A questão central da política era e é a de convencer clientes a comprar um produto. Um produto especial, mas um produto. Uma atividade mercantil, mas digna e respeitável se praticada respeitando o princípio da igualdade e da livre concorrência. A questão é a da natureza corrupta do poder e este, que é um exercício de domínio, não pôde, nem pode, ficar à mercê de vontades livres.

Para exercer o seu domínio e prevenir surpresas, os detentores do poder não podiam e não podem aceitar a livre compra e venda dos votos, mas têm de convencer a clientela de que é livre. É neste convencimento que reside o busílis da conquista e exercício do poder político.

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O segredo da política nas sociedades liberais é convencer os cidadãos de que são livres de escolher. Este convencimento obrigou o Estado, a clássica organização política da sociedade, a colocar parte do poder resultante do voto nas mãos de corporações ditas de “controlo democrático”, muitas vezes autointituladas independentes. Um sistema separação dos poderes (check and balances) definido por Montesquieu, do qual, curiosamente, o poder judiciário não faz parte. Uma opção que, pela atual judicialização da política, parece premonitoriamente sensata.

O sistema funcionou em tensão permanente entre poderes eleitos e poderes de fiscalização, até chegarmos, paulatinamente, à situação de vitória dos poderes corporativos. O Estado, que deveria ser legitimado pelo voto, foi capturado por três corporações que passaram a deter o controlo do negócio do voto. Três corporações que se instalaram no coração do Estado, onde impõem  as suas leis, e que criaram à sua volta um ambiente de impunidade que as impede de serem criticadas, ou postas em causa, sob pena de quem questionar as suas práticas ser acusado das piores intenções antidemocráticas!

Os regimes de democracia liberal estão hoje nas mãos de três corporações fora do controlo do voto, mas essenciais para a sua compra e venda, as da informação e comunicação, as da justiça e as do funcionalismo. 

Através da corporação dos comunicadores condiciona e manipula as opiniões, coloca ou apaga temas sensíveis do julgamento público, mas não pode ser enfrentada porque tem o poder de se fazer vítima de um ataque à liberdade de informação. Nenhum político afrontará os manipuladores, antes pelo contrário, todos procurarão as suas graças.

Inatacável é também a corporação da justiça. O sistema judicial é hoje um poder fora de controlo democrático. Um poder corporativo, e não só o dos juízes, mas de polícias judiciários e procuradores. Mas o poder dos eleitos, resultante da vontade dos eleitores, não pode questionar esse poder porque seria acusado de interferir na “liberdade e independência” da justiça, convenientemente confundida com o poder da corporação!

A terceira corporação intocável é a do funcionalismo do Estado. Nas sociedades desenvolvidas o Estado fornece uma panóplia muito alargada de serviços, alguns deles essenciais. Os funcionários utilizam esse poder de fornecer ou negar serviços essenciais para obterem vantagens corporativas. Os Estados e os eleitos não os afrontam por uma dupla razão, os seus votos diretos contam como fator positivo para as eleições e a devastação que as suas paralisações causam contam como fator negativo. Há que lhes satisfazer os apetites.

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As corporações de intocáveis agem numa lógica que conjugo a chantagem dos antigamente designados “pica-miolos”, de viver à custa do receio de ainda incomodarem mais, se enfrentados e a dos grupos que obtêm proventos criando insegurança, para depois venderem os seus serviços.

Os regimes de democracia liberal são particularmente vulneráveis à ação paralisante das corporações, mas a sua sobrevivência depende da capacidade para os enfrentar.

É da capacidade para enfrentar as corporações que resulta em última instância a sensação de utilidade do voto. As elevadas percentagens de abstenção revelam uma descrença crescente na força do voto contra o poder das corporações, que aparecem como poderes de facto.

A utilidade do voto implica a subordinação das corporações à vontade dos eleitores.

O tabu dos poderes intocáveis tem de ser afrontado!

“A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza.

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Os programas de televisão são quase sempre miseráveis mas é vital que sejam miseráveis. E queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para as pessoas em geral significa responsáveis. Reparem, por exemplo, em Churchill. Quando tudo estava normal, pacífico, calmo, não o queriam como governante. Nas situações extremas, quando era necessário um homem corajoso, lúcido, clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os homens excepcionais servem apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles.

Gostamos dos idiotas porque não nos colocam em causa. Quanto às pessoas de alto nível a sociedade descobriu uma forma espantosa de as neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e Camilo viscondes, como a Inglaterra adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem, com alguns desvios que a gente perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes como ele é, coitado, mas, apesar disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do diferente, do que incomoda o sossego. 

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A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas, meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava. Eu faria um único teste aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E, lendo o que as pessoas dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei. Voltando à pergunta de Dumas

– Porque é que há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?

não tenho a certeza de ser um problema de educação que mais não seja porque os educadores, coitados, não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e educação. A minha resposta a esta questão é outra. Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos, porque perdemos muitas crianças quando elas começaram a crescer. Por inveja, claro. Mas, sobretudo, por medo."

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"Com o tempo… uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta … formará um público tão vil, tão injusto e tão hipócrita quanto ela própria". Alertado por este pensamento de Joseph Pulitzer, o Cascais Diário surge para se afirmar como um projecto de grande informação, orientado por critérios de rigor, transparência,  verdade, criatividade editorial e oportunidade, sem qualquer dependência de ordem ideológica, política, económica, moral ou religiosa.

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