Carlos Matos Gomes, 2019 08 31

Este Agosto está terminar. Um estranho Agosto. Frio, vento, a temperatura das águas trocada, quente a Norte e gelada a Sul. E isto reflecte-se na cabeça das pessoas.

O fim-de-semana de meados deste Agosto (17/18) revelou o ponto a que chegámos com as alterações climáticas a reflectirem-se na confusão de princípios, meios e fins na vida da comunidade. A perturbação afectou não só as gentes comuns, mas até meteorologistas sociais consagrados, especialistas em frentes frias e quentes, ciclones e anticiclones laborais e políticos.

Faleceu o empresário Soares dos Santos, multimilionário dono dos supermercados Pingo Doce, da inerente precariedade do trabalho nas grandes superfícies da distribuição, dos salários mínimos, do esmagamento de produtores, da abertura todos os dias do ano, incluindo 1º de Maio, o do Trabalhador, e excluindo o Natal, o do Senhor. E aparece o senhor Soares dos Santos erigido em herói nacional a quem os portugueses tanto devem, embora lhe pagassem a pronto. Foi assim nos telejornais ao serviço da publicidade que paga o trabalho de missionários em tempos idos a cargo de jornalistas, e nas redes afins.

Soares dos Santos emergiu nesse fim-de-semana como Herói do Capital. Foi quem foi e utilizou o arsenal clássico dos modos de enriquecer, nenhuma novidade nesse campo. Caixas dos supermercados, repositores, carregadores não fazem greve, nem colocam os seus concidadãos na contingência de não terem que comer. Ninguém lhes faz um abaixo-assinado em defesa do seu direito à greve, a aumentos, às horas extraordinárias, a terem um ajudante para as descargas. Estão feitos. Não são matéria perigosa. Pela ideologia dominante é assim: cada um por si. Gostemos ou não.

Para tratar dos interesses dos trabalhadores perigosos do volante de autotanques de combustível surgiu um doutor Pardal Henriques de trotineta na vice-presidência de um sindicato, entronizado em Herói do Trabalho para surpresa dos que preferiam um Agosto limpo de fenómenos exóticos! Ele, que nas empresas que os tribunais proibiram de gerir por sete anos, apenas tivera “colaboradores”, apresentou-se com sucesso e aplauso como o arcanjo do sindicalismo em tempo de saque! Por isso não é de estranhar que muitos dos que elevaram Soares dos Santos no dia do seu passamento à qualidade de herói do capital, tenham sido os mesmos que apareceram e aparecem a elevar o tal Pardal Henriques a herói do trabalho!

A suprema ironia do estranho fim-de-semana de meados deste Agosto teria sido que o funeral do Herói do Capital não se tivesse podido realizar por falta de combustível, consequência da greve organizada pelo novel Herói do Trabalho!

Por fim, para encerrar em beleza um próximo fim-de-semana de Agosto, imaginemos o abaixo-assinado que se fará no dia em que o doutor Pardal Henriques criar um sindicato nacional de coveiros e afins e todos ficarmos com os nossos defuntos insepultos, porque na greve não se toca e nem as forças de segurança e as forças armadas podem substituir coveiros e gatos-pingados, porque estaríamos perante um atentado ao estado de Direito! E no Direito do doutor Pardal Henriques a ofender os direitos dos outros não se toca nem com uma requisição civil, nem com uma pazada de terra!

É por estas e outras defesas intransigentes e direitos absolutos que surgem os Bolsonaros e os seus acompanhamentos ridículos, mas perigosos. A insensatez faz ricochete e nunca se sabe com que forma regressa para nos ferir.

Foi uma maldade o que fizeram ao doutor Pardal Henriques. Ao entronizarem-no como Herói do Trabalho e Arcanjo da Democracia, apoucaram-no. Se, por este caminho de glória, o convidarem para as manifestações do 25 de Abril e do 1º de Maio, os amigos arruínam-lhe o futuro com tanta boa vontade! Aconteceu ao Joe Berardo.

Felizmente o doutor Marinho Pinto reconheceu-lhe o valor e recrutou-o para seu colaborador no partido tão nebuloso como o sindicato do doutor Pardal Henriques, para com ele subir as escadarias do Parlamento.

Confiemos na sabedoria popular: quanto mais alto se sobe de mais alto se cai. E não vá o sapateiro além da fivela.


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