É um lugar-comum dizer que a política tem vindo a perder credibilidade, tal como é uma constatação de algo evidente perceber que o avanço da abstenção se deve em grande parte àquela falta de credibilidade.

A democracia vive da participação. Sem ela as instituições ficam nas mãos de quem, com esperteza saloia, lhes deitar a mão. E isso leva a que, progressivamente, tudo se vá perdendo: perdem-se direitos (por não serem exercidos); perdem-se garantias (por não ser fiscalizado o poder); perdem-se oportunidades de melhorar (por o poder ser exercido por clientelas, muitas vezes as menos competentes).

Em Cascais tem abundado essa forma corrompida de exercício do poder autárquico. Por “corrompida” refiro-me, bem entendido, ao facto de não ser a melhor mas aquela que prescinde do diálogo, aquela que se afirma autoritariamente, aquela que é o avesso do que devia ser, aquela que nega a evidência para construir um discurso afastado da realidade. Ou seja, uma forma de exercício do poder que, em vez de atrair os cidadãos para a participação democrática, os leva – pela forma como o poder é exercido – a afastarem-se sempre mais dela, procurando que a interferência da política seja a menor possível nas suas vidas. Por outras palavras, aquilo que devia unir, afasta.

Nos últimos tempos, aliás, têm-se visto inúmeros exemplos desse alheamento da realidade, do desfasamento entre a realidade e o discurso político de quem administra a autarquia, com as consequências daí resultantes em termos de descrédito do poder e de quem o exerce. O problema está em que esse descrédito só prejudica os munícipes e quem os representar: prejudica os munícipes porque eles não se revêem nesse discurso demagógico; e prejudica quem os representar porque o estigma da demagogia lhe fica associado, como se a única realidade possível fosse aquela.

Na verdade, mesmo este texto pode merecer a desvalorização inerente àquela imagem por ser, também ele, um texto de conteúdo ou reflexão política.

Mas uma questão se coloca: quantas pessoas afirmariam o seguinte ufanamente:

“Estava numa cerimónia que era de aniversário da junta e estava um sujeito à porta, percebi claramente que aquilo ia criar problemas. Era uma altura em que, enfim, as pessoas estavam muito revoltadas, muito afetadas pela crise que se tinha que colocar para pôr o país nos eixos. E quando saio, vou direito a ele e trato-o por tu e digo "tu não me conheces?" e ele fica assim muito aflito e diz "mas o senhor presidente conhece-me de onde?", "não estivemos presos os dois juntos?", ele diz: "sim eu estive preso", "tu estiveste onde?", ele disse lá um nome qualquer que eu não sabia e eu disse "ah não, então não foi daí porque eu fui aqui do Linhó" e saí. Estavam uns colegas da câmara e disseram "mas o senhor presidente já esteve preso?", eu disse: "eu não, mas resolvi o problema".” – Carlos Carreiras, entrevista ao Diário de Notícias, 30 de agosto de 2016.

Creio, sinceramente, que a maioria dos cidadãos não se revê nesta postura, neste uso de expedientes falsos como forma comum do exercício do poder político. A antítese da democracia verdadeira e própria.

A bem da democracia, ponhamos fim a isto.  


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